Eu acompanho o mercado há anos e me surpreendo toda vez que percebo como a moda nacional ainda busca legitimação fora do país. O debate ganhou fôlego neste 30 de março de 2026, quando a empresária e criadora de conteúdo Ana Paula Xongani voltou a questionar a dependência de referências europeias na construção do estilo brasileiro.
Historicamente, coleções que circulam nas passarelas do Brasil reproduzem, com pequenos ajustes, o que já foi chancelado pelas capitais do Norte global. A consequência é a manutenção de um padrão que, na prática, ignora a pluralidade de corpos, culturas e climas presente de Norte a Sul.
Moda nacional perde espaço ao mirar só tendências externas
Para Xongani, a escolha de olhar para fora não se deve à falta de criatividade, mas a um legado colonial que ainda dita o que é considerado luxo. “Quando quem consome e quem produz não considera a nossa cultura, perdemos diversidade”, afirma a empresária.
Por que ainda buscamos validação estrangeira?
Segundo a especialista, classe social e raça interferem diretamente na formação do repertório de moda. Desde o período colonial, tecidos nobres europeus simbolizam status para as elites locais. Essa herança coloca a Europa e os Estados Unidos como árbitros do que é elegante, ofuscando influências indígenas, afro-brasileiras e regionais que alimentam o mercado interno com novas linguagens todos os dias.
Consequências de um olhar único
Ao privilegiar apenas um tipo de corpo e estética, a indústria provoca lacunas que vão além da passarela. Xongani cita exemplos cotidianos:
- Meia-calça que não contempla tons de pele diversos;
- Sapatilhas e toucas que ignoram cabelos crespos;
- Siluetas pensadas para padrões corporais europeus, gerando pressão estética.
“Quando a roupa não serve para você, muita gente tenta mudar o corpo em vez de buscar outra peça”, diz. A padronização, portanto, apaga narrativas plurais e reforça inseguranças.
Tendência: abandonar a palavra “tendência”
Para romper o ciclo, a empresária sugere abolir o conceito de seguir a moda em bloco. Ela recomenda avaliar roupas a partir de critérios como qualidade, sustentabilidade e identidade pessoal. “Ao libertar-se da manada, você escolhe peças que contam a sua história e valorizam o que é local”, defende.
O que marcas podem fazer diferente
Empresas que desejam inovar precisam ampliar o campo de pesquisa além das passarelas. Entre as ações indicadas por Xongani estão:
- Investigar música, literatura e arte brasileiras;
- Dialogar com comunidades regionais e povos originários;
- Filtrar referências internacionais para criar algo genuinamente nacional.
“Você pode se embebedar de muitas referências, mas o resultado precisa passar pelo seu filtro criativo”, reforça.
Papel do consumidor: expandir o horizonte
A mudança também depende de quem compra. A proposta é simples: excluir temporariamente feeds europeus e norte-americanos para descobrir o que existe além deles. A partir daí, o desafio é ampliar esse novo horizonte, apoiando estilistas locais e consumindo marcas que respeitam diversidade, clima e cultura brasileiros.
No fim, a mensagem ecoa: o Brasil dispõe de matéria-prima cultural vasta e diversa. Resta enxergar o valor do que é produzido aqui e deixar que o centro da conversa, enfim, esteja em casa.
Se você se interessa por pautas que valorizam a criação local, vale conferir outras reflexões na seção Moda Atualizada, onde exploramos movimentos que colocam a identidade brasileira em primeiro plano.
Continue navegando pelo site para descobrir como diferentes subculturas vêm reinventando o guarda-roupa nacional.
Com informações de Steal The Look
