Eu venho acompanhando iniciativas de inclusão na beleza e confesso que me emocionei ao descobrir a série de oficinas gratuitas que estão mudando a relação de muitas famílias com o cuidado com cabelo afro em Wrexham, no norte do País de Gales.
Cuidado com cabelo afro foi o ponto de partida para que a empreendedora Natalie Edwards, 38 anos, organizasse cinco encontros que uniram pais, crianças, profissionais de educação e cabeleireiros locais em torno de um mesmo objetivo: aprender técnicas corretas, trocar experiências e, sobretudo, fortalecer o senso de pertencimento de quem sempre se sentiu à margem dos serviços tradicionais de beleza.
Cuidado com cabelo afro: oficinas reforçam identidade
Por que as oficinas surgiram?
Natalie Edwards cresceu em Wrexham na década de 1990 e lembra que, na juventude, sofria para encontrar salões ou produtos adequados ao seu tipo de cabelo. Anos depois, já mãe de dois filhos, ela continuava sendo abordada nas ruas por pais em busca de orientação. Foi então que decidiu agir.
Ao lado de Sian Edwards, Bev Jepson, Amber Percy e Jayne Rowe, colegas que conheceu na Universidade de Wrexham, Natalie fundou em 2025 a Done Together, empresa social que passou a captar recursos para projetos de diversidade. O financiamento veio do programa de “culture grants” do governo galês, administrado pela organização Adferiad.
Como funcionam as oficinas
Os encontros aconteceram em centros comunitários da região e contaram com o apoio das cabeleireiras Helen Gibson e Lucy Carvalho, do salão Dare to Dream. Entre março e abril, foram realizados quatro eventos presenciais em Wrexham e um online, sempre gratuitos.
- Demonstrações práticas de lavagem, hidratação, tranças e twists
- Dicas sobre escolha de pentes, cremes e óleos específicos
- Receitas caseiras, como máscara de abacate, iogurte e mel
- Orientação para compras com orçamento limitado
- Espaço para perguntas de pais, cuidadores e profissionais
Para tornar o aprendizado leve, Helen e Lucy incluíram um quiz interativo e convidaram crianças a praticar os penteados em bonecas ou até mesmo nos cabelos dos próprios familiares. “Quando o processo vira brincadeira, deixa de ser obrigação e passa a ser um momento de carinho”, comentou Helen.
Impacto imediato nas famílias
A receptividade foi maior que a esperada. Entre os participantes estavam avós, irmãos, futuros padrinhos e até técnicos de creche preocupados em oferecer cuidados adequados às crianças negras ou de herança mista.
O DJ e músico Harley Almeida, 21 anos, relatou que costumava viajar cerca de 100 km até Manchester para cortar o cabelo: “Ter a oficina aqui perto foi um alívio, e meu irmão de 11 anos pôde aprender junto”.
A blogueira Anna, de Penymynydd, levou a filha Noora, 9 anos, e elogiou: “Nunca vi algo assim na região. Recebi dicas valiosas para desembaraçar sem dor”.
Questão de identidade e bem-estar
Estudos da Hair and Beauty Industry Authority apontam que o cabelo afro tende a ser naturalmente seco e suscetível a danos, exigindo técnica específica. Mesmo assim, uma investigação da BBC em 2023 constatou que apenas 82 dos 237 colégios ingleses que responderam à pesquisa ensinavam cuidados com fios afro em cursos de cabeleireiro.
Para Natalie, essa lacuna afeta diretamente a autoestima: “Cabelo é parte da identidade. Quando você não encontra produtos ou profissionais capacitados, sua confiança balança”. Veronica Edwards, 71 anos, mãe de Natalie, reforça o argumento: “Na década de 1970, eu voltava ao West Midlands só para fazer o cabelo. Ver essas oficinas agora me dá esperança”.
Desafios e próximos passos
Embora alguns profissionais de beleza tenham participado, ainda faltam cabeleireiros interessados em aprimorar o atendimento a diferentes texturas capilares. “Queremos marcar turmas no fim da tarde para que mais salões enviem seus funcionários”, planeja Natalie. A continuidade, no entanto, depende de novas fontes de financiamento.
As organizadoras também pretendem levar o projeto a outras cidades do País de Gales e disponibilizar materiais on-line, ampliando o alcance da iniciativa.
Por que isso importa
- Reduz deslocamentos longos de famílias em busca de serviços especializados.
- Promove inclusão em regiões de baixa diversidade étnica.
- Contribui para que escolas e cuidadores atendam melhor crianças negras.
Ao final de cada sessão, os participantes saíram munidos de um folheto com contatos de fornecedores e uma lista de rotinas semanais de tratamento. Mais do que técnicas, levaram para casa a certeza de que não estão sozinhos.
Se você se interessa por temas de representatividade na beleza, recomendamos conhecer nossa seção de Cachos, onde publicamos tendências e dicas específicas para cabelos texturizados.
As oficinas de cuidado com cabelo afro em Wrexham mostram que compartilhar conhecimento pode transformar a relação de uma comunidade inteira com a própria imagem. Continue navegando no site para descobrir outras histórias inspiradoras.
Com informações de BBC News
