InícioTendênciaPenteados da novela 'A Nobreza do Amor' viram manifesto

Penteados da novela ‘A Nobreza do Amor’ viram manifesto

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Penteados da novela A Nobreza do Amor roubam a cena no horário das 19h da Globo. Eu acompanho bastidores de caracterização há anos e fiquei impressionada quando descobri o rigor artístico aplicado a cada trança, dread e twist exibido em cena.

Assinada pelo caracterizador-chefe Auri Mota, a estética do fictício reino africano de Batanga foi construída após meses de pesquisa em etnias, rituais e acessórios do continente. O resultado é um manifesto visual que valoriza cabelos crespos e cacheados com uma sofisticação raramente vista na TV aberta.

Penteados da novela ‘A Nobreza do Amor’ viram manifesto

Mota definiu códigos claros: mulheres usam tranças; homens, dreads. O desenho dos fios, a paleta em tons terrosos e o uso de argilas, fibras naturais e metais conversam com a ideia de um povoado regido pela matrilinearidade. De costas, os dreads masculinos remetem às guerreiras de Batanga, reforçando narrativamente quem conduz aquela sociedade.

Pesquisa de campo e mão de obra especializada

Para chegar a esse nível de detalhe, o profissional contou com consultoria de artistas africanos e uma equipe de 18 cabeleireiros que, em dias de gravação, trabalham simultaneamente em até três sets. Há perucas, tintas específicas para cobrir tatuagens sem comprometer o figurino e aparelhos como babyliss e triondas, essenciais quando a trama salta para o cenário de Barro Preto, inspirado nos anos 1920.

Princesa Alika: 12 horas para a primeira trança

A protagonista Alika, vivida por Duda Santos, estreia com tranças fulani extremamente finas. A trancista Zil Reis precisou de 12 horas e o apoio de seis assistentes para finalizar o penteado inaugural. Já houve dias em que 60 figurantes foram trançados de uma só vez para manter a coesão estética de Batanga.

Kênia e seus 50 visuais possíveis

Nikolly Fernandes interpreta Kênia, personagem sedutora que combina trança nagô enraizada com apliques modulares. Quinze estilos já estão prontos, mas o arsenal pode chegar a 50 versões com simples trocas de peças artesanais feitas de arames, telas e costuras, muitas delas importadas da Nigéria.

A passagem do tempo narrada pelos fios

Antes guerreira, depois rainha e enfim mãe, Niara (Érika Januza) muda de penteado conforme a jornada avança. Ela começa com tranças fulani soltas, adota uma coroa trançada durante a gravidez e, em seguida, aparece com coques baixos que sinalizam maturidade. A escolha deixa claro para o espectador em que momento da história cada cena se encontra.

Dreads masculinos esculpidos em forma de escorpião

O vilão Kendall, interpretado por Lázaro Ramos, surge com dreads que lembram um escorpião ou até um búfalo, sempre acompanhados de barba perfeitamente esculpida. A proposta, segundo Auri Mota, é comunicar força e imponência sem recorrer a estereótipos.

Do reino de Batanga à Barro Preto

Quando a família real precisa se refugiar, os cabelos acompanham a mudança de contexto. Na Barro Preto dos anos 1920, Alika passa a usar boina sobre coques laterais ainda trançados, enquanto Niara assume um bob cacheado. A maquiagem também migra para peles opacas e um brilho calculado, visando a iluminação de velas das novas locações.

Brilho que combate o apagamento

Para Mota, a missão vai além da estética: “Minha função é colocar esse povo para brilhar. Se houve apagamento, precisamos trazer luz”, declarou. A luminosidade proposital nas peles negras reforça vida e presença em cada quadro.

Interessou-se pelo impacto cultural dos fios esculturais? Veja também como outras produções influenciam tendências de beleza na matéria completa sobre tendências atuais no nosso site.

Os penteados de A Nobreza do Amor mostram que o cabelo pode ser ferramenta narrativa poderosa, exaltando identidades e marcando viradas de roteiro enquanto dialoga com o público em busca de representatividade.

Com informações de Vogue Brasil

Escrito por:

Priscila Moraes