Burberry aparece novamente entre as grifes mais quentes do mundo, após anos de incertezas sobre sua identidade, e o mercado de luxo reage.
Eu acompanho de perto o vaivém das casas de moda e confesso que me surpreendi quando a lista trimestral da plataforma Lyst, divulgada em abril de 2026, mostrou a Burberry no top 10 — à frente de Bottega Veneta e Loewe. A notícia levantou a pergunta: por que a marca britânica, famosa pelo xadrez e pelo trench coat, voltou a despertar tanto desejo agora?
Burberry volta a ser desejada e retoma posição de destaque
Fundada em 1856 por Thomas Burberry, a grife nasceu da necessidade de roupas de proteção contra o clima e desenvolveu a gabardine, tecido impermeável e respirável que revolucionou o vestuário outdoor no século XIX. O icônico trench coat, criado para soldados britânicos na Primeira Guerra Mundial, atravessou décadas sem perder relevância cultural. Mesmo assim, entre os anos 2000 e metade de 2020 a marca enfrentou uma crise de posicionamento.
Da saturação do xadrez à perda de identidade
Depois de um forte reposicionamento iniciado pela então CEO Rose Marie Bravo no fim dos anos 1990, o xadrez Burberry ganhou onipresença: estampava bonés, bolsas, biquínis e praticamente qualquer peça. A logomania levou o check à saturação, e aquilo que antes simbolizava sofisticação passou a ser visto como excesso.
Christopher Bailey assumiu a direção criativa em 2001 e controlou o uso do padrão: segundo a marca, em 2010 o desenho aparecia em menos de 10 % dos produtos. Sob sua gestão, a Burberry dialogou com música, cinema e cenário londrino, reforçando o DNA britânico. Ainda assim, a saída de Bailey em 2018 abriu espaço para outra guinada.
Riccardo Tisci e o hiato entre tradição e hype
Quando Riccardo Tisci chegou, a casa tentou se alinhar ao streetwear de luxo dominante: novo logo minimalista, monograma TB e coleções mais urbanas. O resultado foi ambíguo. Ao buscar apelo global, a etiqueta perdeu as características que a tornavam singular: o humor inglês, os códigos equestres e a estética country-chic.
Nesse intervalo, o consumidor tradicional se afastou e o público do hypewear não se sentiu totalmente conquistado. A Burberry ficou num limbo, sem ser clássica nem disruptiva o suficiente para liderar tendências.
A virada de Daniel Lee: cavaleiro medieval e clareza de propósito
A reconexão com a própria herança começou em 2022, com a chegada de Daniel Lee à direção criativa. Ele reposicionou o trench coat no centro das coleções, resgatou tons terrosos, referências equestres e o toque de humor britânico. A decisão mais simbólica foi trazer de volta o Equestrian Knight Design, o cavaleiro medieval criado em 1901, afastado desde 2018. O retorno do brasão clássico declarou que reconhecimento gera desejo.
Paralelamente, o CEO Joshua Schulman lançou, em 2024, o plano Burberry Forward, baseado em três frentes: clareza de produto, de posicionamento e de estética. A estratégia inclui manual rigoroso de símbolos, tom de voz e distribuição, além de ajustes de preço para preservar exclusividade.
Campanhas que contam histórias britânicas
- Portraits of an Icon: celebra 170 anos da marca com retratos de Tim Walker, protagonizados por Kate Moss, Daisy Edgar-Jones e Kid Cudi.
- It’s Always Burberry Weather: transforma chuva londrina, romance à moda antiga e casacos impecáveis em narrativa aspiracional.
Essas imagens reafirmam o imaginário de aristocracia inglesa, trilhas de cascalho molhado e chá da tarde, que sempre diferenciou a maison.
Números indicam recuperação consistente
Os resultados divulgados em maio de 2026 confirmam a guinada: a Burberry reportou melhora relevante nas margens operacionais e retomada de vendas em mercados estratégicos, como China e Américas. Schulman atribui o avanço ao foco em clareza — conceito simples, mas raro num setor que costuma se perder em reinvenções.
O interesse renovado se reflete também nas buscas online. A entrada no ranking da Lyst, que monitora comportamento de compra de mais de oito milhões de usuários, aponta aumento concreto do desejo. Nas redes, a surpresa inicial deu lugar a elogios às coleções recentes, que parecem finalmente “ter cara de Burberry” outra vez.
Legado utilitário continua sendo trunfo
A história da marca ajuda a explicar a sustentabilidade desse retorno. Poucas grifes possuem um produto tão indissociável de sua identidade quanto a Burberry com o trench coat. Criado para função militar, o casaco se mantém relevante por habilidade de adaptação: dos campos de batalha às passarelas, do guarda-roupa executivo ao street style.
Ao assumir essa continuidade, Daniel Lee reforçou o apelo utilitário, sem abrir mão de sofisticação. O consumidor contemporâneo, cada vez mais atento à longevidade das peças, encontra no legado funcional um argumento extra para investir.
Desafios à frente
Apesar dos sinais positivos, o caminho não é livre de obstáculos. A concorrência no luxo se intensificou, e novos públicos demandam posicionamentos sociais claros. A Burberry, que já flertou com iniciativas sustentáveis, precisará ampliá-las para manter relevância entre gerações que valorizam impacto ambiental.
Além disso, a saturação do mercado de logotipos minimalistas mostra que a personalização volta ao centro do debate. Manter o equilíbrio entre códigos clássicos e inovação constante será crucial para evitar o risco de nova estagnação.
Por que a Burberry voltou a ser cobiçada?
- Reapropriação da herança: resgate de símbolos, como o cavaleiro medieval, e foco no trench coat.
- Narrativa coesa: campanhas que contam histórias alinhadas ao imaginário britânico.
- Clareza estratégica: plano Burberry Forward, com preços, distribuição e comunicação integrados.
- Direção criativa sólida: Daniel Lee trouxe visão estética consistente e reconhecível.
- Desejo medido: controle de logomania para preservar exclusividade.
No fim, a Burberry mostra que, em uma indústria movida a novidades, voltar às origens pode ser a manobra mais moderna. A casa britânica reencontrou sua personalidade ao abraçar o que sempre foi: a encarnação de uma elegância funcional, temperada com sotaque londrino e pitadas de ousadia.
Para quem acompanha tendências, vale observar como outras grifes podem seguir caminho parecido, revisitando arquivos à procura de autenticidade — tema que abordamos no artigo sobre clássicos que retornam às passarelas em nossa seção de Tendência.
Relembre, portanto, que o desejo não nasceu de uma transformação drástica, mas do reconhecimento de um ícone que nunca perdeu seu lugar na cultura britânica. Fique de olho: se o trench coat surgir na esquina em um dia chuvoso, é provável que a etiqueta no forro seja a sigla EB de Equestrian Knight Design.
Com informações de Steal The Look
