Eu acompanho as semanas de moda de perto e me surpreendi quando, nesta sexta-feira (23 de janeiro), notei a vibração incomum que tomou conta do desfile de inverno 2026 de Willy Chavarria em Paris. O estilista, que estreou ali há apenas um ano, mostrou por que seu nome está entre os mais comentados da temporada.
Desfile começa com papo no Grindr
A apresentação abriu com um vídeo que imitava uma troca de mensagens no aplicativo Grindr. Logo de saída, Chavarria ressaltou sua identidade: homem gay e chicano, termo que ele prefere para definir suas raízes latinas. O recado era claro — o desfile falaria de pertencimento e representatividade.
Line-up musical fora do óbvio
Entre as entradas dos modelos, o público assistiu a shows ao vivo de
- Mon Laferte (Chile)
- Lunay (Porto Rico)
- Mahmood (Itália)
- Feid (Colômbia)
- Lil Mr E. (Califórnia)
- Latin Mafia (México)
- Santos Bravos, boy band com integrantes do Peru, Brasil, México e Porto Rico
A passarela virou palco para vozes que fogem do eixo pop tradicional e reforçam o caráter latino do estilista.
Cenografia à la Dogville
O cenário reproduzia o cruzamento de duas ruas. Nas laterais, apenas objetos indicavam uma cabine telefônica e dois quartos, sem paredes completas — recurso que lembrava o filme Dogville (2003), de Lars von Trier. O clima teatral conduziu um enredo melodramático com personagens típicos da cultura mexicana, estereótipos que Chavarria escancarou para discutir preconceitos.
Modelagens mais contidas, maturidade maior
A coleção mostrou evolução técnica. Ombreiras e golas, antes exageradas, agora surgem mais controladas. No geral, as proporções diminuíram, sem perder presença.
- Na linha feminina, vestidos volumosos deram lugar a saias tipo A ou lápis, blusas de gola alta e sobretudos ajustados.
- Para momentos de festa, apareceram vestidos midi com caudas e casacos-casulo em jacquard, leitura de elegância clássica sob ótica chicana.
Moda além do gênero
Rebeca Mendoza, diretora de estilo desde setembro de 2024, reforça a ideia de não dividir coleção por gênero, mas ampliar o universo criativo da marca. Essa visão ficou evidente na mistura de peças masculinas e femininas em um mesmo look.
Plateia de 2 mil pessoas
Cerca de 2 000 convidados ocuparam o espaço, entre eles 400 participantes da La Watch Party, iniciativa do criador francês Lyas. Em vez de assistir à transmissão online, esse grupo foi levado para dentro do show, aproximando ainda mais a comunidade fashion do trabalho do designer.
Big Willy: básicos já à venda
O diálogo com o consumidor continua na nova linha Big Willy, lançada durante o desfile. São camisetas, calças chino e bonés com preços mais acessíveis, disponíveis imediatamente.
Parceria com Adidas e seleção mexicana
A colaboração constante com a Adidas ganhou destaque com peças desenhadas para a seleção do México na Copa do Mundo que acontece entre junho e julho deste ano.
Identidade e contexto político
Nos bastidores, Chavarria declarou que não consegue ignorar o clima de medo vivido por imigrantes, pessoas LGBTQIAPN+ e latinos nos Estados Unidos. Sua resposta é reafirmar, em cada coleção, todas as facetas que compõem sua história.
Sem mudar um fato sequer, o desfile de inverno 2026 mostrou moda afiada, performance intensa e um manifesto vivo em defesa da diversidade.
Imagem: Getty s

