Eu vi os vídeos logo cedo e ainda estou digerindo a ousadia: Jonathan Anderson acaba de estrear na alta-costura da Dior com uma mistura de séculos, materiais inusitados e um tributo direto aos ateliês que sustentam a maison.
Homenagem começou nos bastidores
Pouco antes do primeiro look surgir no Museu Rodin, um vídeo exibiu costureiros veteranos, alguns contratados nos anos 1980, detalhando a precisão exigida em cada ponto. A reverência a eles ganhou força quando o estilista revelou que John Galliano passara pelo escritório dias antes da coleção feminina de estreia, em 2025, levando:
- um buquê de ciclames amarrado com fita preta — as mesmas flores que viraram o convite do desfile;
- uma sacola de supermercado recheada de snacks para a equipe.
O gesto celebrou o elo afetivo entre Galliano e parte da mão de obra que o acompanhou por 15 anos.
Arquivos revisitados, não copiados
Desde as primeiras coleções prêt-à-porter do inverno e verão 2026, Anderson vem cavando o acervo da Dior, do século 18 até ontem. Essa colagem de épocas se repete agora, mas com identidade própria:
- tecidos franceses do período pré-Revolução aparecem bordados em bolsas;
- saltos lembram criações de Roger Vivier, sapateiro da casa entre 1953 e 1963;
- meteoritos, fósseis e pedras brutas de Etiópia, Brasil, Marrocos e Madagascar enfeitam pulseiras pesadas.
Flores ganham novos papéis
Christian Dior via as rosas como símbolo de feminilidade. Anderson mantém a botânica em foco, porém subverte:
- orquídeas, lírios brancos e suculentas viram ombreiras, brincos arredondados e franjas na cintura;
- o teto do salão é tomado por ciclames, ecoando a estreia de Raf Simons no inverno 2012.
Silhuetas de vaso
As formas volumosas têm inspiração na ceramista britânica Magdalene Odundo, famosa por vasos que imitam curvas humanas. Os resultados variam:
- volumes ampliados afastam o tecido do corpo;
- em outras passagens, a expansão se concentra na barriga ou no torso;
- a lendária jaqueta Bar surge como casaco longo ou blazer com lapelas torcidas.
E, para quebrar o imaginário de gala, o estilista inclui tricôs, calças balão e regatas caneladas.
Tempo virou matéria-prima
As peças que abriram o prêt-à-porter de verão 2026 — redemoinhos de plissado — retornam em versão couture. Como a técnica não cabe em um mês, Anderson estendeu o processo: cada coleção passa a ser confeccionada em seis meses. No comunicado à imprensa, ele frisou que a natureza oferece “sistemas em movimento, evoluindo e resistindo” — lição que ele aplica à alta-costura ao exigir mais tempo para que o ofício siga vivo.
Mais do que vestidos de festa
Para ampliar o guarda-roupa couture, a Dior agora oferece também:
- bolsas que mesclam brocados históricos e meteoritos;
- joias talhadas em pedras brutas;
- sapatos que homenageiam a era Vivier.
A ideia é aproximar a alta-costura do cotidiano, ainda que o luxo continue evidente.
Com essa primeira coleção, Jonathan Anderson finca um pé no passado, outro no presente e mira o futuro, sempre amparado pelos mesmos ateliês que sustentam a marca há décadas.
Imagem: Victor VIRGILE

