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Agricultura regenerativa avança na indústria de cosméticos

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Eu venho acompanhando de perto as mudanças na cadeia de suprimentos da beleza e fiquei impressionada ao ver como a agricultura regenerativa começa a virar regra — e não exceção — entre as grandes casas de cosméticos.

Agricultura regenerativa ganha terreno justamente quando a crise climática pressiona um setor avaliado em 500 bilhões de euros e fortemente dependente de matérias-primas vegetais. Sem solos saudáveis, não há perfumes, cremes ou maquiagens para abastecer prateleiras pelo mundo. Essa constatação tem levado marcas francesas — líderes globais com 14,1 % das exportações — e seus concorrentes a rever contratos agrícolas, investir em rastreabilidade e repensar modelos de negócios inteiros.

Agricultura regenerativa avança na indústria de cosméticos

Ao contrário das normas orgânicas, ainda não existe um marco legal que determine o que é ou não regenerativo. A adesão depende de compromissos voluntários, certificações como ROC (Regenerative Organic Certified) e, sobretudo, de contratos de longo prazo que reduzam riscos para produtores. Mesmo sem esse amparo oficial, iniciativas se multiplicam na França, nos Estados Unidos e em polos agrícolas estratégicos no Sul global.

Clarins mira 30 % do fornecimento em práticas regenerativas

Com receita de 1,7 bilhão de euros em 2024 e 20 mil pontos de venda, a Clarins foi uma das pioneiras ao comprar, em 2016, uma fazenda orgânica nos Alpes. Quatro anos depois, anunciou a meta de elevar de 1 % para 80 % a participação de insumos orgânicos até 2025. Nesse processo, descobriu algo preocupante: projeções baseadas nos relatórios do IPCC indicam que 70 % das 208 plantas do seu herbário podem enfrentar escassez de água ou eventos extremos já nos próximos 20 a 30 anos.

  • 2020: meta de 80 % de matérias-primas orgânicas em 5 anos
  • 2025: plano quinquenal para chegar a 30 % de insumos regenerativos
  • 2030: certificação ROC em todas as propriedades próprias

Para ganhar escala, a empresa comprou em 2024 uma segunda fazenda, em Sainte-Colombe, dez vezes maior que a de Serraval. Lá, pretende cultivar diretamente 60 das 180 plantas ativas usadas em seus lançamentos. A estratégia inclui agroflorestas, aumento de matéria orgânica no solo — cada 1 % a mais armazena até 200 m³ de água por hectare — e contratos de médio prazo com agricultores parceiros.

Expanscience quer metade do portfólio regenerativo até 2035

Fundada em 1950, a farmacêutica Expanscience fatura 370 milhões de euros, 70 % no exterior, e depende 99 % de matérias-primas de origem vegetal. Reconhecida como companhia com missão desde 2021 e certificada B Corp, a empresa estabeleceu uma ambição clara: garantir que 50 % dos seus insumos venham da agricultura regenerativa até 2035; os outros 50 % deverão ser orgânicos.

O caminho passa por três frentes:

  1. Suppliers Day: encontro anual que reúne fornecedores com maior impacto de carbono, biodiversidade e receita.
  2. Contratos de 3 a 5 anos: incluindo aporte ao investimento inicial e seguro-risco da transição.
  3. Rastreabilidade total: participação no consórcio Trasce, ao lado de L’Oréal, LVMH, Chanel e Clarins, para mapear cada etapa da cadeia.

Segundo o diretor de compras, Laurent Schatz, a fase de testes dura dois anos. Só depois a companhia avança para compras em volume, reduzindo o risco de quebra de safra enquanto apoia pequenos produtores em solo francês e em regiões tropicais onde culturas específicas prosperam.

Marcas de luxo e polos setoriais aceleram o movimento

O ecossistema da beleza francesa reúne hoje cerca de 700 atores na Cosmetic Valley, polo de competitividade que, em outubro, dedicará a feira B2B Cosmetic 360 à temática regenerativa. Entre os destaques:

  • Chanel e LVMH — abastecem linhas Dior e Guerlain por meio de parcerias diretas no campo.
  • L’Occitane — planeja gerir 1 milhão de hectares com práticas regenerativas até 2030, concentrando esforços em lavanda na Provença e karité em Burkina Faso.
  • L’Oréal — incluiu o modelo em seu programa “L’Oréal for the Future” como ferramenta de descarbonização.

O desafio, contudo, vai além das marcas. Falta um mapeamento nacional que una projetos dispersos e traduza diferentes selos — ROC, Índice de Regénération, Certificat Régénération, entre outros — em métricas comparáveis. Entidades como o coletivo Animer trabalham para criar essa visão de conjuntura e acelerar a adoção de práticas que devolvam vida ao solo, protejam polinizadores e melhorem a renda de comunidades rurais.

Por que a transição é urgente

Dados recentes mostram que, na França, apenas 5 % das propriedades adotam práticas regenerativas. Enquanto isso, cada ponto percentual perdido de matéria orgânica diminui drasticamente a capacidade de retenção de água, intensificando erosão, secas e quebras de safra. Para empresas dependentes de óleos, extratos e manteigas, perder acesso a ingredientes significa paralisar linhas inteiras e comprometer metas de faturamento.

Especialistas também lembram que a agricultura regenerativa não reduz produtividade. Ela atua como seguro de resiliência, diminuindo adubação sintética, diversificando cultivos e incorporando árvores que fornecem sombra e biomassa ao solo. O custo inicial, porém, é alto para o produtor — motivo pelo qual contratos de longo prazo e apoio financeiro corporativo são fundamentais.

Próximos passos para universalizar o modelo

Em linhas gerais, o caminho para popularizar a regeneração no setor de cosméticos passa por:

  1. Definições claras: padronizar métricas de carbono, biodiversidade e bem-estar social.
  2. Escala financeira: linhas de crédito específicas e participação de investidores de impacto.
  3. Transparência digital: blockchain e plataformas colaborativas para rastrear cada lote de matéria-prima.
  4. Compartilhamento de risco: contratos que remunerem a transição e protejam agricultores de oscilações de mercado.

Se essas etapas forem cumpridas, o setor poderá transformar uma ameaça existencial — a degradação dos solos — em vantagem competitiva, atendendo à crescente demanda do consumidor por produtos que cuidem da pele sem degradar o planeta.

Para saber mais sobre movimentos sustentáveis que já impactam o universo da beleza, confira também nosso artigo sobre tendências na moda atualizada e veja como inovação e responsabilidade caminham juntas.

O avanço da agricultura regenerativa na cosmética ainda é discreto, mas a pressão climática acelera decisões. À medida que Clarins, Expanscience e outras gigantes amadurecem metas ambiciosas, abre-se uma janela de oportunidade para transformar toda a cadeia, do pequeno agricultor ao consumidor final.

Com informações de FashionNetwork.com

Escrito por:

Priscila Moraes