Eu acompanho de perto a trajetória de Jonathan Anderson e fiquei intrigado quando ele avisou que precisaria de cinco temporadas para moldar sua Dior Men. Agora, no segundo capítulo dessa história, o estilista mostra que não estava exagerando.
Um processo declarado de transformação
Em junho passado, Anderson assumiu publicamente que seu plano para a Dior seria um “work in progress”. Ele antecipou repetições, contradições e viradas bruscas até chegar ao resultado desejado. O verão 2026 apresentou uma estética preppy. Meses depois, o inverno 2026 mergulha num universo punk e new wave, mantendo apenas a aristocracia como elo entre as coleções.
Rebeldia no lugar da reverência
Se a temporada anterior reverenciava a elite, a passarela atual faz o oposto: provoca. O diretor criativo diminui a dependência dos códigos clássicos da maison e injeta seu humor irônico e irreverente.
Paul Poiret entra em cena
A principal referência vem de Paul Poiret, couturier que, décadas antes de Christian Dior, transformou a Avenue Montaigne no centro da alta-costura parisiense. Um mosaico em homenagem ao francês dos anos 1920 fica a poucos passos do QG da Dior – e Anderson o transformou em ponto de partida:
- Os três primeiros looks trazem blusas inspiradas na parte superior de um vestido Poiret de 1922, peça que Anderson comprou recentemente.
- Calças de jacquard e capas luxuosas aplicadas a parkas e sobretudos reforçam o diálogo com a opulência defendida por Poiret.
Poiret defendia roupas livres de estruturas rígidas, inspiradas em diferentes culturas. Dior, que debutou apenas em 1947, preferia silhuetas controladas e elegantes. A afinidade criativa de Anderson, portanto, está mais próxima do primeiro.
Questionando a ideia de luxo
Em entrevistas e no comunicado à imprensa, Anderson diz querer entender como a opulência é percebida hoje, num momento de crescente crítica às elites financeiras. Para a Dior, decodificar esse sentimento é vital para manter relevância.
Hi-low de rockstar
Essa reflexão aparece em combinações de alto impacto:
- Top ricamente bordado com jeans lavado.
- Jaqueta Bar ultracurtada, com barra acima do quadril, sobre bermuda larga.
Alfaiataria desconstruída
O estilista subverte peças tradicionais:
- A jaqueta de fraque vira cardigan de tricô.
- Blazers encolhidos deixam parte do abdômen à mostra.
- Calças justíssimas fazem eco ao período Hedi Slimane na antiga Dior Homme.
Um passo ousado, mas coerente
Depois de anos ancorada em imagens contidas, a Dior Men ganha um choque de energia. Mesmo rompendo com a formalidade típica da maison, Anderson mantém o diálogo com a história ao revisitar conceitos de aristocracia e opulência. A promessa de mais três temporadas de experimentação deixa claro: o trabalho ainda está só começando.
Imagem: Getty s

