Eu acompanho as discussões sobre representação histórica na TV e me chamou atenção como o figurino de Dona Beja foi tratado na nova série da HBO. A produção, ambientada em Araxá no século XIX, recorre às roupas para reforçar temas atuais de autonomia, desejo e poder feminino.
A figurinista Beth Filipecki detalhou a construção visual da protagonista em entrevista exclusiva, explicando escolhas de tecidos, cores e cortes que conversam com o discurso de empoderamento sem trair o contexto de época.
Figurino de Dona Beja evidencia empoderamento feminino
Estrelada por Grazi Massafera, a adaptação estreia em 23 de março de 2026 na HBO Max. Desde o primeiro episódio, o guarda-roupa se impõe como elemento narrativo central, traduzindo a força da personagem histórica Ana Jacinta, conhecida como Dona Beja, figura influente na sociedade mineira oitocentista.
Força da atriz e texto moderno como ponto de partida
Segundo Filipecki, a construção começou pela própria intérprete. “Grazi já carrega autonomia, sensualidade e poder”, afirmou. A equipe de roteiro, por sua vez, incorporou um “discurso feminino muito atual”, o que permitiu ao figurino acompanhar essa linha sem descaracterizar o período império, quando a cintura ficava logo abaixo do busto.
Tecidos leves para a juventude, pedrarias para o auge
No início da trama, a figurinista investe em voil de algodão e materiais delicados para sinalizar a fase adolescente da protagonista. À medida que Dona Beja ganha status, as peças assumem bordados elaborados, transparências ousadas e joias volumosas. Um vestido verde bordado em pedrarias, usado em um lanche com amigas, foi apontado por Filipecki como o momento em que “Beja se consolida” na tela.
Cores que rompem a moral conservadora
- Capa vermelha em vez do preto tradicional, simbolizando desafio às normas sociais.
- Transparências rebordadas para realçar sensualidade e teatralidade.
- Mistura de peças masculinas, como coletes renascentistas, adaptadas ao corpo feminino.
Esses elementos visuais expõem, segundo a criadora, a hipocrisia de uma sociedade que “não dava lugar para a mulher” e transformam Beja em alvo de inveja, mas também em agente de mudança.
Acervo pessoal torna o projeto autoral
Boa parte das roupas saiu do acervo particular de Filipecki, que coleciona peças garimpadas em brechós europeus. Tecidos renascentistas e barrocos, comprados em bancas estudantis de Milão por falta de orçamento na época, ganharam nova vida na série. O acesso a artigos originais permitiu que costureiras reproduzissem técnicas antigas com precisão artesanal.
Equilíbrio entre fidelidade histórica e licença criativa
A validação veio quando a atriz “se sentiu dentro do figurino” nas primeiras gravações. Para a designer, a roupa só cumpre sua função quando o intérprete incorpora gestos condizentes com o traje. Esse entrosamento, aliado à cenografia e à iluminação, assegurou verossimilhança mesmo com toques contemporâneos, como referências Dior e Dolce & Gabbana em detalhes de modelagem.
Diversas fases da protagonista em roupas distintas
Na terceira etapa da narrativa, com Dona Beja já rica e dona de propriedades, os figurinos ganham cortes estruturados, cinturas marcadas e mistura de rendas transparentes com alfaiataria inspirada em peças masculinas. O objetivo, explica Filipecki, foi “salientar o poder da joalheria, do decote e da sensualidade” enquanto mostrava a ascensão financeira da personagem.
Uma linguagem de empoderamento que atravessa séculos
Questionada sobre quem é Dona Beja através de suas roupas, a figurinista foi direta: “Ela é linguagem, ela é discurso”. Mesmo abrigada em saias volumosas e anáguas do século XIX, a personagem comunica ideais de liberdade feminina compatíveis com o debate atual sobre espaço e autonomia da mulher.
Para quem gosta de analisar como vestuário e narrativa se cruzam, vale explorar outras produções que revisitamos em nosso site. No artigo sobre tendências de moda atualizada, discutimos como designers contemporâneos resgatam referências históricas para falar com o público de hoje.
Com a estreia se aproximando, o figurino de Dona Beja já se destaca como estudo de caso de como cor, tecido e corte podem funcionar além da estética, assumindo papel de enredo na luta feminina por espaço desde o Brasil Império.
Com informações de Steal The Look
