Eu acompanho desfiles de alta-costura há anos e me surpreendi quando cheguei ao Hôtel Salomon de Rothschild: não havia passarela.
Espionando a passarela
Para ver a coleção verão 2026 da Valentino, convidados precisavam espiar por janelinhas abertas em paredes de madeira. Do outro lado, modelos desfilavam em salas minúsculas, criando um clima de peep show.
A máquina do século 19 que inspirou tudo
Alessandro Michele se baseou no kaiserpanorama, aparelho cilíndrico inventado no fim do século 19 que acomodava até 25 pessoas para observar imagens tridimensionais através de lentes. Considerado um precursor do cinema, o equipamento exibia cenas raras, curiosas ou deslumbrantes — exatamente o tipo de exclusividade associada à alta-costura.
Cinefilia em evidência
• Valentino Garavani, fundador da maison, morto na semana passada aos 93 anos, era apaixonado pela sétima arte.
• Michele também cultiva essa ligação com o espetáculo, ponto de partida para a coleção.
Décadas de glamour
Brilhos intensos, vestidos e capas alongadas, acessórios de cabeça dramáticos e lingeries apareceram com referências diretas aos anos 1930, 1940 e 1980 — períodos que o diretor criativo vem revisitando há algumas temporadas. A proposta de peep show reforçou o jogo de pele à mostra, sedução e erotismo trabalhado por Michele nos últimos desfiles.
Olhar controlado, esforço físico
Em nota à imprensa, o estilista explicou que queria “direcionar o olhar” e eliminar distrações. Funcionou: cada peça podia ser vista com enorme riqueza de detalhes, mas de forma fragmentada. Para alcançar a pequena abertura, o público precisava se aproximar, curvar o corpo e escolher o ângulo.
Quando as modelos surgiram lado a lado, fora dos kaiserpanoramas, a visão completa confirmou o argumento de que a moda ganha sentido pleno apenas quando vista em contexto amplo.


