Eu acompanho o Festival de Cannes há mais de uma década e confesso que, quando a lista dos concorrentes de 2026 saiu, senti uma mistura de expectativa e frustração.
Festival de Cannes 2026 inicia sua 79ª edição com 21 longas disputando a cobiçada Palma de Ouro, mas apenas cinco são assinados por mulheres, número inferior ao do ano passado e que reforça o debate sobre paridade de gênero no evento.
Festival de Cannes 2026 destaca apenas cinco diretoras
Embora a seleção tenha sido saudada por ampliar a diversidade geográfica – há menos produções norte-americanas e nenhuma latino-americana na competição principal –, a presença feminina continua restrita. Desde 1946, apenas 82 diretoras competiram em Cannes, contraste gritante frente aos mais de 1.600 homens já escolhidos. Em quase oito décadas, somente três obras dirigidas por mulheres venceram a Palma de Ouro: “O Piano” (1993), “Titane” (2021) e “Anatomia de uma Queda” (2023).
Quem são as cinco diretoras na competição oficial
- Marie Kreutzer (Áustria) – “Gentle Monster”
- Valeska Grisebach (Alemanha) – “The Dreamed Adventure”
- Jeanne Herry (França) – “Garance”
- Léa Mysius (França) – “Histoire de la Nuit”
- Charline Bourgeois-Tacquet (França) – “La Vie d’une Femme”
Apesar de já terem passado por grandes festivais, é a primeira vez que as cinco cineastas concorrem oficialmente em Cannes. O passo é simbólico: mostra abertura da organização a novas vozes, ainda que o ritmo de mudanças permaneça lento.
Participação feminina vai além da Palma de Ouro
Nas mostras paralelas, o panorama é mais encorajador. A Un Certain Regard, vitrine de narrativas ousadas, reúne cineastas de quatro continentes:
- “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, de Jane Schoenbrun (EUA)
- “All the Lovers in the Night”, de Yukiko Sode (Japão)
- “Strawberries”, de Laila Marrakchi (Marrocos)
- “I Am Always Your Maternal Animal”, de Valentina Maurel (Costa Rica)
A Semana da Crítica apresenta sete títulos, cinco deles dirigidos por mulheres, consolidando-se como espaço de descoberta. Já a Quinzaine des Cinéastes confirma até agora três longas femininos, entre eles “La Perra”, da chilena Dominga Sotomayor, com participação de Selton Mello.
Pressão por representatividade surte efeito parcial
Desde 2018, após protestos de profissionais do setor e pactos públicos por igualdade, Cannes adota metas internas de diversidade. O resultado é visível na formação dos júris e nas mostras paralelas, mas a competição principal continua aquém: em 79 edições, apenas 14 presidentes de júri foram mulheres.
A diretora artística do festival, Iris Knobloch, declarou que o critério permanece a “qualidade artística”, mas reconheceu a necessidade de “corrigir distorções históricas”. Organizações como Women in Motion e Collectif 50/50 mantêm a pressão, divulgando relatórios anuais sobre a proporção de gênero nas inscrições e nas escolhas finais.
Expectativas para a Palma de Ouro de 2026
Entre especialistas, a aposta em uma segunda vitória feminina consecutiva é vista como improvável, mas não impossível. A performance de “Gentle Monster” e “Histoire de la Nuit” nos mercados de pré-estreia chamou atenção da crítica, enquanto “La Vie d’une Femme” gerou repercussão positiva por abordar maternidade sem romantização.
Independente do resultado, as cinco diretoras já garantem visibilidade internacional inédita. Distribuidoras de streaming e salas de arte buscam parcerias antes mesmo das exibições no Grand Théâtre Lumière, sinal de que a demanda por perspectivas femininas permanece alta.
Por que ainda são tão poucas?
A raiz do problema vai além dos festivais. Pesquisas da Unesco indicam que apenas 20% dos longas europeus lançados entre 2019 e 2023 foram dirigidos por mulheres. Faltam recursos, redes de contatos e reconhecimento crítico para que mais projetos femininos alcancem estágios avançados de produção e, consequentemente, cheguem a Cannes.
Para a produtora alemã Maren Ade, presença constante no festival, “o símbolo é importante, mas o impacto real só virá com mudanças estruturais nos fundos públicos e privados”. Até lá, cada vaga conquistada na Croisette serve de termômetro do avanço – ou da estagnação – da igualdade de gênero na indústria cinematográfica.
Para quem deseja observar outras frentes em que as mulheres vêm conquistando espaço, vale conferir a cobertura sobre tendências de passarela na categoria Moda Atualizada, que mostra como o debate se estende além das telas.
O 79º Festival de Cannes segue até 23 de maio, quando conheceremos o vencedor da Palma de Ouro e, quem sabe, mais um marco para as diretoras.
Com informações de Steal The Look
